Dar Mesada para criança ou não dar: o que realmente importa na educação financeira infantil!
“Por que meus amigos ganham mesada e eu não?”
Minha filha (Ela) perguntou enquanto me ajudava a arrumar a cozinha depois do jantar. Olhou de lado, com um ar de curiosidade genuína, mas também com aquela pontinha de provocação que só quem cresceu escutando “aqui em casa é diferente” sabe dar.
Segurei o impulso de responder no automático. Respirei fundo, apoiei as mãos na pia ainda úmida, e disse:
“Se você pode ganhar o seu próprio dinheiro, por que eu teria que te dar?”
Foi uma resposta serena, mas firme. Não porque eu soube desde o início o que estava fazendo — ser mãe raramente é ter certezas. Mas, porque essa foi uma decisão pensada, testada e ajustada ao longo do tempo. Com intenção de acertar e de fazer o que acho que é o melhor para minhas filhas.
Dinheiro na infância: entre teoria, rotina e afeto
Aqui em casa, a mesada para as crianças nunca foi automática. Desde que minhas filhas eram pequenas, optamos por um sistema no qual o dinheiro entra como parte de um processo — não como direito adquirido.
Algumas tarefas fazem parte da convivência: cuidar dos próprios materiais, guardar a roupa, respeitar o espaço comum. Outras são oportunidades de ganho: organizar o armário da despensa, colocar a mesa, dobrar as toalhas.
Não seguimos esse modelo por acaso. Passei os últimos 15 anos trabalhando com finanças e também estudando o impacto do dinheiro nas famílias, na formação de hábitos e nas dinâmicas emocionais. Algo que aprendi é que o dinheiro ensina, e muito! Mesmo quando não queremos. Mesmo quando achamos que não estamos falando sobre ele.
A decisão de como introduzimos o dinheiro na vida das crianças é, na verdade, uma escolha sobre o que estamos comunicando: sobre valor, esforço, merecimento, tempo, desejo. Por isso, pensar se vale ou não dar mesada para criança é, na verdade, refletir sobre o que queremos ensinar.
Mesada para criança: uma ferramenta com potencial — e armadilhas
Não há nada de errado em dar mesada para criança. P elo contrário: diversos estudos apontam que, quando bem estruturada, ela pode ser uma ferramenta valiosa de educação financeira. Segundo uma pesquisa publicada no Journal of Economic Psychology (Drever et al., 2015), crianças que têm contato com dinheiro desde cedo — mesmo em pequenas quantias — desenvolvem mais rapidamente habilidades ligadas a planejamento, autocontrole e tomada de decisão.
Combinada a diálogos constantes, divisão entre categorias (gastar, guardar, doar), e autonomia progressiva, a mesada pode criar um espaço seguro para testar, errar e aprender.
Mas, como qualquer ferramenta, ela exige intenção. Ao se tornar uma quantia fixa, entregue sem conversa nem contexto, corre o risco de perder o valor educativo. Vira uma transferência — e não um convite à reflexão.
O sistema de tarefas: protagonismo e pertencimento
Na nossa família, optamos por associar o ganho de dinheiro a tarefas específicas. Isso permite às crianças entenderem a relação entre esforço e resultado, promover senso de contribuição, e praticar escolhas. Mas esse modelo também requer cuidado.
Nem tudo na vida deve ser remunerado. Ajudar um irmão, participar do jantar, cuidar do próprio espaço — tudo isso é parte da vida em comum, e não moeda de troca. Como mostra a pesquisadora Deborah Small (University of Pennsylvania), quando usamos recompensas financeiras com frequência, podemos acabar desestimulando a motivação intrínseca — aquela que faz a criança agir pelo prazer da ação em si (Small, 2013).
Aqui em casa, a gente conversa sobre isso o tempo todo: nem tudo vale dinheiro, mas tudo vale diálogo. E esse equilíbrio tem sido uma construção viva.
Experiência prática: o princípio que guia a Nara
Se existe um valor que carrego com convicção — como mãe, como pesquisadora, como fundadora da Nara — é este: crianças precisam de experiências práticas com o dinheiro.
Não basta ensinar conceitos. É preciso que elas vivam, toquem, errem, testem. Que tenham a chance de se frustrar e tentar de novo. Seja com tarefas ou com mesada para criança, a experiência concreta é o que transforma saber em habilidade. É o que cria memória emocional — e não apenas conteúdo.
Afinal, como mostram os estudos da Universidade de Cambridge, a maior parte dos hábitos financeiros se forma até os 7 anos de idade (Whitebread & Bingham, 2013). Não é sobre esperar que a criança entenda juros compostos. É sobre permitir que ela sinta o tempo que leva para conquistar algo. E perceba, no próprio corpo, o valor da espera, do planejamento, da escolha.
Mesada para criança não é destino. É caminho!
Não existe certo ou errado. Existe o que funciona para a sua família, para seus valores, para a sua realidade. E o que importa, no fundo, não é o modelo — mas a presença.
Aqui em casa, o modelo de tarefas funcionou. Com revisões. Com renegociações. Com falhas e recomeços. Com dias em que esquecemos o combinado. E foi aí, justamente aí, que os maiores aprendizados aconteceram.
Porque o dinheiro é só um pretexto. O que fica mesmo é o vínculo.
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Referências:
Drever, E., Oddy, M., & Begg, I. (2015). Children and Financial Decision-Making: A Review of Behavioural Evidence and Interventions. Journal of Economic Psychology, 47, 191–204.
Small, D. A. (2013). The Hidden Costs of Rewarding Good Behavior. University of Pennsylvania, The Wharton School. Whitebread, D., & Bingham, S. (2013). Habit Formation and Learning in Young Children. University of Cambridge.